Janeiro de 2026: Mundo Parte 3/7: Groenlândia

Janeiro de 2026 foi o mês em que o mais poderoso membro da Otan ameaçou intervenção militar contra outro membro pelo capricho incompreensível de anexar a Groenlândia, levando muitos a temer que a organização pudesse colapsar e a Europa a pensar seriamente em uma Otan sem os Estados Unidos. Após a intervenção na Venezuela (ver edição anterior), Trump perpetrou uma escalada verbal assustadora a respeito da ilha.

Os europeus ameaçaram, porém, ressuscitar uma retaliação comercial formulada em 2025 contra as tarifas americanas, que fora na época suspensa até fevereiro deste ano. Com a ajuda da diplomacia do chefe da Otan, o TACO recuou, evitando uma nova guerra comercial aberta entre EU e UE, e o que ele conseguiu foi apenas a disposição dos europeus em reverem o acordo já existente sobre o território. 

Cobertura desta edição: 15/01/2026 a 11/02/2026


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GROENLÂNDIA


A escalada

A percepção sobre o que Trump é capaz de fazer e do seu perfil de “rei louco” sofreu uma inflexão forte com o caso da Groenlândia. Depois da invasão da Venezuela (ver edição anterior), ele escalou diariamente e a olhos vistos suas ameaças de tomar a ilha, chegando a afirmar que qualquer coisa a menos que a sua posse pelos EUA seria “inaceitável”. A situação chegou num ponto em que sete países europeus resolveram mandar tropas para lá. O grupo inclui França, Alemanha, Noruega e Suécia, além da Dinamarca, que aumentará as que já tem.

A tensão atingiu um nível sem precedentes quando Trump reagiu ao envio de tropas ameaçando tarifas adicionais de 10% a oito países do continente a partir de primeiro de fevereiro caso não concordassem em vender a Groenlândia para os Estados Unidos. Os países são Reino Unido, França, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia. Com isso, eles ficariam com um total de 25% de tarifas. Se eles não dessem o que ele quer até julho, a nova tarifa adicional subiria de 10% para 25%, perfazendo no total 40%.

A impressão de muitos era que a atitude Trump estava ameaçando levar a própria Otan ao colapso[1] – algo para o que, aliás, Vladimir Putin tem trabalhado ardentemente, porque sabe que dividir o Ocidente é a única possibilidade de ele não perder a guerra na Ucrânia. Um membro da Otan, o mais poderoso, havia ameaçado atacar outro membro. A organização parecia correr o risco de implodir sozinha, sem ele precisar fazer nada.


Os europeus enfrentam o TACO

Porém, diferentemente do que houve em 2025, desta vez os europeus mostraram os dentes. O contraste foi grande. No ano passado quando, no auge de sua guerra comercial, Trump tentou impor uma tarifa de 30% ao bloco, a UE, sozinha após a China ter se recusado a se unir a ela contra os EUA, não viu alternativa a não ser aceitar um acordo draconiano que foi visto por muitos como uma capitulação. A impressão que ficou então foi que, depois que os europeus cederam, ninguém mais poderia se contrapor às chantagens tarifárias de Trump e estávamos todos à mercê dele. De fato, Bruxelas havia aceitado que a tarifa americana fosse elevada para “apenas” 15% (aço e alumínio continuaram com 50%) e, ao mesmo tempo, que a UE reduzisse as suas próprias taxas para zero para certos produtos estratégicos (incluindo aviões). Um acordo bom para um lado só.

No entanto, aquilo foi só parte da história. Na época, os europeus haviam também ameaçado os EUA com tarifas contra certos produtos americanos escolhidos a dedo – os que pudessem ser comprados de outros países pelos europeus e que atingissem especificamente certos redutos eleitorais e certos políticos governistas nos Estados Unidos. Para causar o maior estrago possível no adversário com o mínimo custo possível à UE. No total, as taxas incidiriam sobre 93 bilhões de euros de importações dos EUA. O que o acordo de 2025 fez foi adiar essa retaliação até 7 de fevereiro deste ano, quando então, esperava-se, a suspensão seria prorrogada.

Ou seja, o timing de Trump não poderia ter sido menos antiestratégico: bastava à UE decidir pela não prorrogação. Foi o que ela ameaçou. Foi o suficiente para o TACO (Trump Always Chicken Out). Os europeus tinham marcado uma reunião em que o bloco decidiria se aplicaria a retaliação. Na véspera, Trump voltou atrás. Uma nova guerra comercial aberta entre os dois lados havia sido evitada, por ora.


Europeus e americanos conversam

Trump justificou-se dizendo que tinha havido “avanços” nas “negociações”. Mas o que houve, na verdade, foi uma conversa entre ele e o chefe da Otan, o holandês Mark Rutte. Rutte é o principal contato entre os europeus e o americano e ele fez um intenso esforço diplomático para tentar acalmar o republicano.

Rutte conseguiu esse resultado, porém, porque habilmente conseguiu lhe oferecer uma saída honrosa. Os dois discutiram a renegociação do pacto de 1951 no qual a Dinamarca havia cedido aos EUA o uso do território da Groenlândia para bases militares suas. Os americanos chegaram a ter dezenas de instalações e 10 mil militares lá no auge da Guerra Fria, mas de lá para cá as reduziram e agora só têm uma base e 150 militares.

A primeira-ministra da Dinamarca naturalmente fez questão de declarar que Rutte não havia negociado em nome de seu país – mas também colaborou com os panos quentes, ao dizer que está disposta a conversar sobre o tratado. E existe já um grupo de trabalho sobre isso entre os europeus formado antes que a escalada de Trump atingisse tais níveis[2].

É difícil saber, porém, se esse arranjo vai durar. Trump ainda quer a Groenlândia. E as suas justificativas para assediá-la podem ser irracionais, mas o derretimento da calota de gelo do Ártico está abrindo novos caminhos de tráfego marítimo e também a possibilidade de exploração de minérios no leito marinho. Ambos os fatores andam acendendo o espírito de disputa nos países banhados pelo Ártico.


Referências:

[1] Le Monde, Editorial, 23/01/2026 
[2] Valor Econômico 23/01/2026  

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