Dezembro de 2025 - Parte 4: Mundo (Outras regiões e temas)

 

REGISTROS DO PRESENTE

DEZEMBRO DE 2026 (Até 14/01/2026)

PARTE 4


 

Data de fechamento: 14/01/2026

 

Índice geral e informações gerais

Parte 1: Brasil

Parte 2: Mundo: Destaque: A invasão da Venezuela

Parte 3: Mundo: Guerra da Ucrânia

Parte 4: Mundo: Outras regiões e temas

 

Assuntos abordados neste texto:

 

MUNDO

 

América Latina

·       Eleições no Chile e em Honduras

·       Flexibilização no controle cambial na Argentina

·       Eleições para o Haiti

 

A guerra comercial

·       Tarifas do México contra o Brasil

·       O superávit comercial recorde da China

 

Europa

·       Adiamento do acordo com o Mercosul

·       Entrada da Bulgária na zona do euro

 

Estados Unidos

·       A nova Estratégia de Segurança Nacional

·       A Lei de Autorização da Defesa Nacional

·       A derrota de Trump no caso Trump vs. Illinois

 

Oriente Médio

·       Racha na coalizão contra os houthis no Iêmen

·       Os protestos no Irã

·       Os bombardeios israelenses no Líbano e em Gaza

 

África

·       Acordo de paz na República Democrática do Congo

·       Ataque dos EUA ao Estado Islâmico na Nigéria

·       O reconhecimento da independência da Somalilândia por Israel

 

América Latina

Eleições no Chile e em Honduras – O Brasil está ficando politicamente isolado na América Latina. Os dois últimos países a elegerem governos alinhados ou aliados a Trump foram o Chile, com a prevista vitória de José Antonio Kast sobre a comunista Jeannete Jara, e Honduras, onde Nasry Asfura finalmente foi declarado vencedor, após atrasos e adiamentos na contagem de votos entre dois candidatos praticamente empatados. Na Venezuela, ninguém sabe o que acontecerá.

Flexibilização no controle cambial na Argentina – Na Argentina, o desmonte da política cambial do governo Milei prosseguiu quando o Banco Central decidiu indexar a variação da banda cambial segundo a inflação. A manutenção do câmbio valorizado foi um dos principais instrumentos usados por Miliei para forçar a inflação do país a ceder – de fato, com isso, ele conseguiu derrubá-la espetacularmente: de 211% em 12 meses, quando assumiu, para 31,4%. Mas essa estratégia causa fortes desequilíbrios na economia (como excesso de importações, produzindo déficit comercial, e falta de dinheiro do governo). O que forçou o BC a flexibilizá-la.

Eleições para o Haiti – No Haiti, haverá, finalmente, eleições no ano que vem, decidiu o governo de transição que está no poder desde o assassinato do presidente Juvenal Moïse, em julho de 2021.  Cerca de 90% da capital continua tomada por gangues; em setembro, o Conselho de Segurança da ONU decidiu transformar a sua força de paz no país numa tropa antigangue.

 

A guerra comercial

As tarifas do México contra o Brasil – Em dezembro, o Brasil foi alvo de tarifas vindas não dos EUA, mas do México. Na verdade, elas atingiram vários outros países que não têm acordo de livre comércio com os mexicanos, especialmente da Ásia; e seu alvo principal foi, na verdade, a China. A razão dos mexicanos terem feito isso é para protegerem sua economia das alterações súbitas no fluxo do comércio internacional por causa dos efeitos das tarifas dos Estados Unidos.

Essa é uma tendência que ameaça se instalar no mundo. Ou seja, apesar de neste momento a guerra comercial de Trump estar passando por um momento de calmaria, ela está sombriamente parecendo começar a mudar de cara: começa a deixar a fase impulsionada por atitudes unilaterais de um só país (os EUA) e para passar para uma posterior, perigosa, em que os diversos países começam a impor tarifas uns aos outros para se protegerem das invasões de produtos estrangeiros que não podem mais entrar nos Estados Unidos e são desviados para outros mercados compradores.

O superávit comercial recorde da China – A China deverá ser, de fato, a mais castigada por ações desse tipo, porque são os seus produtos que não entram nos EUA os que mais tendem a inundar todos os outros países. De fato, basta olhar sua balança comercial: apesar de um dos maiores objetivos das tarifas americanas ter sido enforcar a economia chinesa, seu superávit comercial não só aumentou como bateu um recorde e atingiu um marco: ultrapassou um trilhão de dólares no fim de 2025. O que indica que as tarifas de Trump falharam fragorosamente naquela missão. E, como as exportações chinesas para os Estados Unidos diminuíram (e mesmo assim a China ainda mantém superávit com os EUA), isso indica que as da China para o resto do mundo aumentaram.

Na verdade, esse resultado chinês foi muito influenciado pela sobrevalorização do yuan, a moeda chinesa. Se a China funcionasse como uma economia de mercado, esse enorme fluxo líquido de exportações tenderia, pela teoria econômica, a produzir o movimento oposto, a desvalorizar a moeda até um equilíbrio ser atingido. Mas o que há é uma alta artificial produzida pelas empresas chinesas, instadas pelo governo de Xi Jinping. Há que se levar em conta que a China não é uma economia de mercado e que seu governo interfere fortemente na dinâmica comercial. É um dos instrumentos que Pequim usa para se defender na guerra comercial.

 

Europa

Adiamento do acordo com o Mercosul – Outro efeito das tarifas de Trump é a tendência ao realinhamento dos blocos econômicos. Em particular, a aproximação entre União Europeia e Mercosul e a proximidade do fechamento do acordo de livre comércio entre as duas entidades.

De fato, pareceu por algum tempo que ele seria assinado em dezembro passado. Mas o problema agora é a própria UE – ou melhor, seus agricultores, assustadíssimos com a concorrência com grandes produtores agrícolas sul-americanos que não estão sujeitos às mesmas restrições ambientais que na Europa. Para apaziguá-los, o bloco aprovou um endurecimento das salvaguardas, que preveem a suspensão do acordo caso haja um aumento demasiado das exportações do Mercosul para a UE. A principal alteração foi prever que elas passem a funcionar caso essas exportações ultrapassassem um aumento de 5%, quando a cifra anterior era de 10%.

A pressão das tarifas de Trump era tal que o Mercosul aceitou essas alterações unilaterais. Mas não foram suficientes para os agricultores europeus. Houve uma enorme manifestação do setor em Bruxelas na véspera da assinatura, que seria em Foz do Iguaçu; e a Itália então pediu que ela fosse adiada para que seu governo tivesse tempo de apaziguar seu próprio setor agrícola. Ursula van der Leyen não teve opção: se os italianos se juntassem à França na oposição à assinatura, haveria quórum suficiente para o acordo ser rechaçado institucionalmente pela UE. Os franceses são o maior produtor agrícola da UE. A assinatura foi adiada na última hora para o início de 2026. 

Com isso, o acordo não poderá ser assinado durante a presidência brasileira do Mercosul, pois esta terminou em 31 de dezembro. Isso deve ter frustrado particularmente a Lula. Recentemente, a roda voltou a avançar e a maioria dos países-membros da União Europeia concordou com a assinatura do acordo (a França se manteve contrária, mas a Itália votou a favor). A assinatura deverá ser em 17 de janeiro, só que em Assunção, no Paraguai - o novo presidente do bloco.

Entrada da Bulgária na zona do euro – A Bulgária entrou na zona do euro no dia primeiro de janeiro. Isso logo depois de o primeiro-ministro cair por causa de manifestações de rua – que não tiveram diretamente a ver com a adesão, mas com a situação econômica do país (ainda que a expectativa de aumento de inflação por causa da adoção da nova moeda possa ter contribuído).

 

Estados Unidos

A política interna dos Estados Unidos mereceria uma postagem à parte. Destaco aqui apenas o seguinte. 

Dois documentos federais lançados em dezembro revelaram uma curiosa contradição interna no governo. Por um lado, a nova Estratégia de Segurança Nacional adotou o discurso costumeiro trumpista, como se o presidente estivesse falando para a imprensa: tirou a menção à Rússia como ameaça, introduziu fortes críticas à União Europeia, tratou a imigração ilegal como problema de segurança nacional e até mencionou a “teoria da grande substituição”, um delírio teórico de um ultraconservador francês sobre a troca da população autóctone branca por imigrantes.

O documento também anuncia que os Estados Unidos deveriam resgatar a doutrina Monroe do século XIX, que estabelecia o Hemisfério Ocidental, especialmente a América Latina, como zona de influência dos EUA  o que foi ilustrado espetacularmente na intervenção na Venezuela. Mas também manifesta interesse na região do Indo-Pacífico (leia-se “lidar com a ameaça da China na região”).

Por outro lado, a Lei de Autorização de Defesa Nacional, foi surpreendentemente sóbria em comparação com a outra e aparentemente inconsistente com alguns pontos do discurso trumpiano. Em particular, estabeleceu um piso para a presença militar americana na Europa de 76 mil militares – ou seja, praticamente mantendo o aumento que houve depois da invasão maciça da Ucrânia de 2022, antes da qual havia só 65 mil (há agora 80 mil). Isso, enquanto Trump repete que os europeus precisam arcar com sua própria defesa. E impôs um mínimo de US$ 400 milhões anuais de ajuda para a Iniciativa de Assistência à Segurança da Ucrânia – um programa imposto por Trump pelo qual os europeus compram materiais bélicos americanos para transferi-los aos ucranianos (ao invés de os EUA os mandarem diretamente para lá, como costumava acontecer antes).

Internamente, porém, Trump continua testando os limites do poder presidencial e, principalmente, a disposição do seu país de acionar o seu (teoricamente) robusto sistema de freios e contrapesos para impedi-lo de abusos. O caso é que a Justiça é mais lenta do que a caneta do presidente – mas espera-se que em algum momento a conta acabe chegando. De fato, em dezembro, ele perdeu na Justiça o processo Trump x Illinois, o que significa que ele agora terá que retirar as tropas federais de Chicago. Isso pode ser um precedente para acontecer o mesmo com outras cidades democratas para as quais ele enviou federais alegando necessidade de manter a ordem (mas na prática para perseguir imigrantes e humilhar os governos da oposição), como Washington, Los Angeles, Memphis e Portland.

 

Oriente Médio

Iêmen – No Iêmen, rachou a coalizão que luta contra os rebeldes houthis com apoio da Arábia Saudita. O episódio é interessante para esclarecer alguns aspectos sobre a complicada guerra civil iemenita. Os líderes da dita coalizão fazem parte do colegiado de oito membros que atualmente forma o governo do país (não há um presidente). Bizarramente, dela fazia parte um grupo separatista, o Conselho de Transição do Sul (CTS), cujo objetivo é a independência do sul do Iêmen – revertendo assim a unificação do país de 1990, quando havia dois países, o Iêmen e o Iêmen do Sul. O CTS é apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, rivais da Arábia Saudita em alguns outros palcos na região, como na guerra civil do Sudão e no conflito entre Etiópia e Eritréia.

Não podia dar certo por muito tempo. Em dezembro, o CTS fez uma ofensiva-relâmpago e conseguiu ocupar praticamente todo o território do antigo Iêmen do Sul. Especulou-se que eles poderiam declarar independência. O governo iemenita e também o saudita se assustaram. A força aérea da Arábia Saudita, que apoia o governo contra os houthis, chegou a bombardear posições do grupo.

Mas o avanço-relâmpago reverteu em derrota. Os territórios recém-conquistados foram retomados pelas forças governamentais. O líder do CTS foi declarado traidor pelo governo iemenita e fugiu para local desconhecido. Pouco depois, o grupo foi dissolvido.

Irã – Mais um surto de protestos da população iraniana contra o governo. Desta vez, desencadeadas por uma manifestação contra a crise econômica do país (40% de inflação anual) e que desde 28 de dezembro vem se espalhando rapidamente. Apesar de todo o noticiário, do número de mortos crescendo assustadoramente e da ameaça de intervenção de Trump, não é claro que este caso não terá o mesmo destino que os outros (o maior de todos em 2022), que foram abafados pela repressão, sem que houvesse nenhuma reforma pelo governo depois. A se ver.

Líbano – Continuam os ataques aéreos israelenses relativamente frequentes ao Líbano (em instalações do Hezbolá e do Hamas), apesar do cessar-fogo vigente desde novembro de 2024, após a guerra entre Israel e o Hezbolá. O governo israelense argumenta que as condições do cessar-fogo exigem que a milícia precisava depor as armas até o fim de 2025, mas que isso não estava acontecendo  e, de fato, não aconteceu. Na verdade, o governo libanês não está conseguindo convencer o grupo a fazer isso. Reclama também que, ao contrário, a milícia estaria tentando reconstruir instalações militares suas no país, destruídas pelos bombardeios israelenses de 2024.

Gaza – Em Gaza, o processo de paz está num impasse por razão semelhante: o Hamas se recusa a depor as armas enquanto houver ocupação do território pelas tropas de Israel; o governo de Israel exige que o grupo deponha as armas para se retirar. A primeira reunião do Conselho de Paz de Gaza (que deverá supervisionar a sua administração por um período de transição) será em janeiro, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos. 

 A ideia inicial de Trump era colocar Tony Blair como a estrela desse grupo, mas os árabes o rejeitaram e ele foi substituído por Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido. Enquanto isso, registram-se também bombardeios esporádicos de Israel no território - apesar do cessar-fogo.

 

África

República Democrática do Congo – O acordo de paz entre a República Democrática do Congo e Ruanda foi finalmente assinado. Ruanda tem tropas no país para apoiar o M23 (os ruandeses negam), um grupo insurgente que atua no leste do Congo e que chegou em 2025 a tomar Goma, a maior cidade daquela região do país. Por outro lado, Ruanda está no Congo também para lutar contra os seus próprios insurgentes, as Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda, que possuem tropas infiltradas dentro do país. O governo congolês, por sua vez, é apoiado por Burundi, outro país vizinho, que também tem um pequeno contingente de militares no seu território. A propósito, o leste do Congo é rico em minerais estratégicos.

Bem, o acordo de paz, de cuja mediação Donald Trump participou, prevê que as tropas ruandesas se retirarão do território do Congo e que o governo congolês combaterá no seu lugar as Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda. 

O problema é que o documento não diz nada sobre o M23, que assim continua livre para atuar. E, de fato, o grupo ignorou o tratado e continuou seu avanço, conquistando outra cidade importante, Uvira, na fronteira com Burundi. A cidade é estratégica e sua queda foi um golpe para o governo em Kinshasa, porque ela cortou o acesso das forças aramadas do Congo ao aeroporto de Bujumbura, capital de Burundi. Ou seja, o acordo de paz não instaurou a paz.

Nigéria – Na Nigéria, ataque aéreo dos Estados Unidos ao Estado Islâmico. Trump diz que foi para proteger os cristãos de massacres (na verdade, os membros do EI não atacam só cristãos, mas também muçulmanos).

Somalilândia – Após um terço de século, a Somalilândia finalmente teve sua independência reconhecida por um país: Israel. A Somalilândia corresponde aproximadamente ao terço norte da Somália e declarou a independência em 1991. Enquanto o resto do país mergulhou no caos, a Somalilândia desfrutava de estabilidade política. Porém, sua soberania nunca foi reconhecida por nenhum governo. Até agora.

 

 

 

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