Janeiro de 2026: Mundo Parte 5/7: Guerra da Ucrânia
Um raro encontro tripartite entre ucranianos, russos e americanos aconteceu em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Mas o foco diplomático ocidental agora é em formular um acordo para garantias à Ucrânia que assegurem que ela não será invadida de novo pela Rússia após o fim da guerra. Trump, porém, condiciona a assinatura à entrega do resto do Donbass aos invasores, incluindo a principal linha de defesa ucraniana, o Cinturão de Fortalezas.
Enquanto isso, os russos avançam muito lentamente no campo de batalha. Tomaram Myrnorhad, perto de Pokrovsk (que tentam tomar há mais de 21 meses) e disputam um jogo de xadrez com os ucranianos nos movimentos estratégicos para permitir o assédio ao Cinturão de Fortalezas do Donbass. Ao mesmo tempo, os russos aproveitam o inverno para causar o máximo de estrago na infraestrutura energética ucraniana com ataques aéreos. Um acordo de fornecimento de gás natural liquefeito pelos EUA pode fazer alguma diferença. Já a Ucrânia também tem bombardeado sistematicamente as refinarias petrolíferas russas, o que tem produzido golpes na economia do país, já bastante afetada pela guerra.
Um terrível capítulo à parte é a política russa de militarização das crianças nas zonas ocupadas.
Ver também a cobertura da edição anterior.
Cobertura desta edição: 15/01/2026 a 11/02/2026
Índice
Índice geral desta edição
GUERRA DA UCRÂNIA
- Resumo
- As negociações de paz
- O campo de batalha
- A economia russa
- A militarização das crianças
- Referências
As negociações de paz
A presença de representantes de várias nações do mundo no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, foi aproveitada para avançar as negociações de paz para a guerra da Ucrânia. Logo depois, após uma reunião entre americanos e russos em Moscou, chegou a haver um raro encontro tripartite, envolvendo americanos, russos e ucranianos, em Abu Dabi, nos Emirados Árabes Unidos. Não se sabe o que conversaram.
O encontro continuaria em 1º de fevereiro, mas Putin o adiou para dia 4, para que coincidisse com o fim do prazo de validade do último tratado de não-proliferação nuclear ainda vigente, o Novo Start, assinado em 2010, que proíbe novos testes nucleares e estabelece mecanismos de verificação mútua entre EUA e Rússia. Na verdade, a execução desse acordo já estava suspensa na prática desde 2020[1]. Mas o governo russo tenta agora chantagear as negociações sobre a guerra oferecendo a Trump como cenoura uma renovação do pacto nuclear, se os EUA fizerem o mesmo.
Porém, neste momento, ao invés de se concentrar em uma proposta de paz, Estados Unidos, União Europeia e Ucrânia estão pondo foco em algo mais fácil, um acordo sobre garantias de segurança para os ucranianos (detalhes na edição anterior), para entrar em vigor depois que a guerra acabar, para impedir uma nova invasão russa. Segundo Zelensky, o presidente ucraniano, ele está 100% pronto e só falta a assinatura[2].
No entanto, pessoas por dentro do conteúdo das conversas dizem que, para os EUA assinarem, Donald Trump exige que a Ucrânia entregue aos russos o resto do Donbass, a região oriental do país em que os russos estão pondo foco (formada pelas oblasts de Luhansk e Donetsk)[3]. Há uma razão para os russos a quererem: no “resto do Donbass” está o Cinturão de Fortalezas, um conjunto de quatro cidades que constitui a principal linha de defesa ucraniana contra o avanço russo (mais sobre ele na edição anterior). Trump pede nada menos que eles a entreguem aos inimigos. Mesmo que isso seja totalmente contrário à própria proposta de “garantias de segurança”, porque, sem esse Cinturão, a Ucrânia ficaria muito mais vulnerável a uma nova invasão da poderosa vizinha.
O campo de batalha
Há um verdadeiro jogo de xadrez entre russos e ucranianos no campo de batalha a respeito do Cinturão de Fortalezas[4] (ver os mapas no fim desta seção). Os russos já se aproximaram da sua extremidade sul, em Kostyantynivka, mas, para poder abordá-lo pela extremidade norte, em Sloviansk, precisam conquistar alguns locais estratégicos. Um deles é a cidade de Lymann, um pouco ao norte de Sloviansk.
O que os russos normalmente fazem para tomar uma cidade mais fortificada (como Lymann) é cercarem-na e só depois entrarem nela. As tropas russas já avançaram até encostarem em Lymann pelo seu flanco sudeste. Pelo seu flanco nordeste, entre a frente de batalha e Lymann ainda havia outra cidade, Zairchne. Esta, no entanto, foi quase toda tomada pelos invasores em janeiro.
Porém, para conseguirem consolidar esses avanços e completar o cerco, é necessário, igualmente por razões estratégicas, a tomada de outra cidade ainda mais ao norte, Kupyansk. Nesta, contudo, os russos sofreram um revés em dezembro e foram expulsos de quase todo o seu sítio urbano e das áreas próximas. Neste momento, tentam reverter o estrago.
No mais, destaque para a confirmação da tomada pelos russos de Myrnohrad, vizinha de Pokrovsk. Esta última está quase toda já ocupada, após 22 meses de batalhas para conquistá-la (ver edição anterior).
E também para a confirmação da ocupação de Huliaypole, na frente sul, após 3 meses de luta[5]. Essa cidade é estratégica porque ela permitiria aos russos atacar a frente sul avançando pelo oeste, dando a volta pelas defesas ucranianas, que têm sido ali eficientes para deter as tentativas de rompê-la vindas a partir do norte[6].
Agora é inverno no Hemisfério Norte e todo ano os russos aproveitam essa época para intensificar os bombardeios à infraestrutura energética da Ucrânia. Segundo uma entrevista à Reuters do presidente da DTEK, a maior empresa privada do país, neste momento, os civis têm apenas entre 3 e 4 horas de energia por dia em várias regiões do país, enquanto a temperatura flutua entre 15 e 20 graus Celsius negativos. Segundo ele, os russos tentam dividir a rede elétrica da Ucrânia, desconectando partes entre si, inclusive isolando Kyiv[7].
Pode fazer diferença, porém, o acordo entre os Estados Unidos e uma joint-venture grega assinado no início de fevereiro pelo qual os americanos exportarão gás natural liquefeito à Ucrânia por meio de um gasoduto que passa pela Grécia, Bulgária, Romênia e Moldávia[8].
Na guerra híbrida, destaque para um ataque cibernético à infraestrutura elétrica da Polônia no fim de dezembro que, segundo o primeiro-ministro do país, quase causou um blecaute no seu território. Ver edição anterior para detalhes sobre o que é a guerra híbrida e sobre o seu desenrolar.
Ir para o início da seção "O campo de batalha"
A economia russa
A Ucrânia vem bombardeando impiedosamente as instalações energéticas russas, principalmente refinarias de petróleo, mas também a elétrica. As consequências nem sempre são intuitivas: isso vem causando uma alta constante no preço da eletricidade no extremo leste russo, fora do alcance dos drones ucranianos. Como resultado, os russos não conseguiram sustentar a competitividade do preço da energia elétrica exportada para os chineses e, assim que ele ficou maior do que o preço da eletricidade no interior da própria China, esta suspendeu suas importações da Rússia.
O que vem pressionar ainda mais as finanças russas. Mais da metade do fundo soberano do país já foi corroído para financiar os custos da guerra. Trata-se de um fundo de investimento de propriedade do governo originalmente usado para evitar que este recaia em déficit público. Em novembro do ano passado, o governo começou a usar ouro físico para pagar os custos do conflito. Após o acordo entre Estados Unidos e Índia, esta deverá diminuir bastante a importação de petróleo da Rússia, agravando ainda mais a pressão sobre a economia russa. Já há relatos de que várias refinarias indianas pararam de fazê-lo[9].
O impacto econômico da guerra é diferenciado também nas áreas ocupadas. Enquanto na Rússia a inflação anual, segundo o governo, é de 7% (e, segundo os Estados Unidos, de 20%), na Crimeia ela atingiu quase 107%, segundo o próprio governo russo.
A militarização das crianças
A situação das crianças ucranianas nas zonas ocupadas é um capítulo à parte. O governo russo as tem transferido para outras partes das zonas ocupadas da Ucrânia ou mesmo deportado para dentro da Rússia, entregando-as para adoção por famílias russas – o que é crime de guerra e está qualificado como “genocídio” pelo artigo II da Convenção de para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, de 1948 (item “e”). O poder para retirar crianças da guarda dos pais ou dos responsáveis e transferi-las para outras partes da Ucrânia foi ampliado no dia primeiro de janeiro, quando entrou em vigor uma lei que a estende da esfera federal para os governos municipais.
O regime também adaptou o currículo de História das escolas e tem implementado programas de educação militar para as crianças, especialmente no manejo e montagem de drones. Até agora, essa atividade não incluía o treinamento com esses aparelhos em situações equivalentes às de combate, mas isso mudou em janeiro[10]. A legislação agora diz também que as escolas, tanto na Rússia como na Ucrânia ocupada, devem dispor de materiais relacionados à construção de drones e que a montagem e o manejo desses aparelhos devem constar do currículo escolar.
Outros materiais para educação militar que as escolas devem possuir são simuladores táticos, kits sobre “fundamentos de defesa”, material para educação militar-patriótica, equipamentos modernos de proteção pessoal e equipamentos de treinamentos de primeiros socorros[10]. A orientação segue os “Fundamentos de Segurança e Proteção da Mãe-Pátria” (OBZR), um programa obrigatório.
Essa militarização das crianças acontece nos dois países, Rússia e na Ucrânia. O governo prepara assim novos quadros para essas atividades[10]. Os efeitos de longo prazo na militarização de crianças podem ser vistos na Crimeia, onde ela acontece desde sua anexação pela Rússia em 2014. Um rastreamento mostrou que 318 delas, após crescerem, morreram no campo de batalha na atual guerra na Ucrânia[11].
Referências:
ROCA = Russian Offensive Campaign Assessment, ISW
ROU = Russian Occupation Update, ISW
[1] Valor Econômico 06/02/2026, Editorial
[2] ROCA 26/01/2026
[3] The Economist 29/01/2026, “The World This Week”
[4] Esse jogo estratégico pode ser inferido pelo ROCA 02/02/2026
[5] ROCA 06/02/2026
[6] ROCA 06/02/2026, ver parágrafo sobre Orikhiv, que começa com “Russian forces made relatively quicker advances in the Hulyaipole direction…”
[7] ROCA 24/01/2026
[8] ROCA 04/02/2026
[9] ROCA 09/02/2026
[10] ROU 22/01/2026
[11] ROU 30/01/2026


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