Dezembro de 2025 - Parte 2 (Mundo: Venezuela)
REGISTROS DO PRESENTE
DEZEMBRO DE 2026 (Até 14/01/2026)
PARTE 2
Data de fechamento: 14/01/2026
Índice geral e informações gerais
Parte 2: Mundo: Destaque: A invasão da Venezuela
Parte 3: Mundo: Guerra da Ucrânia
Parte 4: Mundo: Outras regiões e temas
Assuntos abordados neste texto:
MUNDO
Destaque: A invasão da Venezuela
· O ataque
o As ações preliminares
o O sequestro de Maduro
o A continuidade do regime chavista
o A tutela do petróleo venezuelano
o O papel das empresas americanas
o Tutela do governo venezuelano?
o O recuo da acusação contra Maduro
o A reação do Brasil
o Ameaças a outros países
o Ameaça à Groenlândia
o A nova ordem americana
Destaque: A invasão da Venezuela
O ataque
A se confirmar nos livros de História, mas parece que foi a primeira vez que tropas dos Estados Unidos invadiram um país sul-americano. A ação foi precedida pela longa preparação de uma força naval na região do Caribe que incluiu o maior porta-aviões do mundo; pela apreensão de três petroleiros que tentavam furar o bloqueio americano à exportação do petróleo venezuelano (agora já somam seis); e pelo afundamento de vários barcos no Caribe e no Pacífico que a Casa Branca declarava ser de narcotraficantes, sem no entanto oferecer nenhuma prova – esses ataques mataram até agora pelo menos 115 pessoas.
Até ali, tudo isso em águas internacionais. A primeira operação em território venezuelano foi um bombardeio a um de seus portos por drones da CIA, supostamente para destruir instalações do narcotráfico. Estranhamente, o regime de Maduro se calou. Poucos dias depois, as forças americanas bombardearam posições militares venezuelanas em vários pontos do país, neutralizaram sua capacidade antiaérea e em seguida desembarcaram cerca de duzentos militares em Caracas, os quais invadiram o bunker de Maduro – eles tinham sua planta –, capturaram a ele e à sua esposa Cilia Flores e os levaram de barco a Nova York, onde já compareceram perante um tribunal por envolvimento em tráfico de drogas.
A nova ordem venezuelana
O que se seguiu foi muito estranho. O resto do regime chavista continua intacto. Delcy González, a vice-presidente, assumiu como presidente interina e foi reconhecida pelo governo do Brasil – apesar este não ter reconhecido a vitória nas eleições da chapa que ela compôs com Maduro, por causa de fraude. Milícias chavistas passaram a patrulhar as ruas de Caracas para reprimir manifestações contra o governo. As Forças Armadas se alinharam em peso à nova mandatária.
Mais coerentemente, a líder opositora María Corina Machado declarou que Edmundo González, o verdadeiro vitorioso do pleito, deveria assumir. Mas Trump descartou a ambos. A intervenção não foi para restaurar a democracia e isso sequer está sendo disfarçado pelo norte-americano.
A única coisa cristalina em tudo isso é o objetivo de Trump. Conforme ele e altos funcionários do seu governo declararam nos dias seguintes, o plano é (não se trata de cinismo, eles disseram isso ipsis litteris): os lucros com o petróleo venezuelano deverão ser usados exclusivamente para comprar produtos estado-unidenses; esse dinheiro será depositado em contas controladas pelo governo dos EUA e em bancos “globalmente reconhecidos” e será então distribuído para americanos e venezuelanos a critério de Washington. A tutela sobre o petróleo da Venezuela se estenderá por tempo indeterminado. Há quem lembre, porém, que a Venezuela é também rica em minerais estratégicos, o petróleo do século XXI, fundamental para a indústria moderna de microeletrônica, de baterias e de materiais magnéticos – e para a de inteligência artificial.
O país possui de longe as maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo. No entanto, sua infraestrutura de exploração está severamente sucateada. Trump quer que as empresas dos EUA voltem ao país e a reconstruam (apenas a Chevron permaneceu lá). Em uma reunião com o presidente, porém, os representantes dessas companhias deixaram claro que só o farão com garantias muito substanciais – não só por causa do estado material do setor petrolífero, mas do regulatório: com as leis de lá do jeito que estão, permitindo expulsar empresas estrangeiras à discrição do governo, como este já fez várias vezes sob Maduro, não dá para se aventurar.
Mas os americanos teriam se lembrado de combinar tudo isso com Caracas? Em parte, pode ser que sim. Logo após a invasão, Trump declarou que os Estados Unidos iriam “administrar” a Venezuela até que houvesse uma transição ordenada. Em um primeiro instante, todo mundo pensou que ele se referisse ao estabelecimento de um protetorado. Foi até anunciado um plano de três fases: estabilização, recuperação econômica e transição do poder. Mas, ao que parece, o “administrar” significa garantir que Delcy González fará o que o republicano quer. Senão, sabe-se lá o que pode acontecer com ela. Por via das dúvidas, contingentes de militares venezuelanos estão agora postados ao redor da sede do governo.
E sobre Maduro ser líder do Cartel de los Soles? A acusação contra ele em Nova York desistiu da ideia: o grupo nunca existiu, era uma expressão que a imprensa venezuelana usava para se referir ao regime do país, porque o sol é um símbolo que aparece nas insígnias dos seus oficiais militares de alta patente...
Agora, Lula tem que decidir como lidar com tudo isso. Ele não pode deixar de condenar veementemente o que aconteceu, mas também não pode deixar destrambelhar a aproximação com Trump que tantos dividendos políticos tem lhe rendido em casa. Nas declarações dos nossos diplomatas na OEA e na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU (onde o Brasil não tem assento, mas pediu para discursar, dados seus interesses no episódio), apesar de terem sido contundentes, o nome de Donald Trump não foi mencionado. A oposição bolsonarista, por enquanto, está amando.
A nova ordem americana
Mas o que mais assustou foi a metralhadora giratória de Trump que se seguiu à intervenção militar. Ele passou a ameaçar Gustavo Petro da Colômbia, Claudia Sheinbaum do México, Cuba e a Groenlândia. A Venezuela e o México são os principais financiadores de Cuba por meio de fornecimento de petróleo. O México e a Colômbia são as principais origens de drogas para dentro dos Estados Unidos (e não a Venezuela, apesar de ela ser um trânsito importante).
A ameaça de anexar a Groenlândia, mesmo que seja pela força, adquiriu outra dimensão após o enquadramento à força do regime venezuelano e deixou os europeus de cabelos em pé. Parece agora provável que Trump vá mesmo tentar que isso aconteça de alguma forma, seja lá qual for, antes do fim do seu mandato. Isso, apesar de os EUA já terem uma base lá e um acordo com a Dinamarca que lhes dá amplas margens de atuação na ilha e nos mares ao seu redor – ao contrário do que diz o republicano, a segurança dos Estados Unidos ali neste momento já está nas mãos dos americanos. Mas a Groenlândia também é rica em minerais estratégicos.
Tudo isso está em consonância com a “Doutrina Donroe”, como o próprio Trump chamou sua retomada, a seu modo, da doutrina Monroe de 1823 (“a América para os americanos”). Também está preocupantemente em linha com o que diz a nova Estratégia de Segurança Nacional recentemente divulgada, que enfatiza a hegemonia dos EUA na América Latina.
A impressão sombria que ficou foi que agora o jogo é outro.
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