Dezembro de 2025 - Parte 3 (Mundo: Guerra da Ucrânia)

 

REGISTROS DO PRESENTE

DEZEMBRO DE 2026 (Até 14/01/2026)

PARTE 3

 

Data de fechamento: 14/01/2026

 

Índice geral e informações gerais

Parte 1: Brasil

Parte 2: Mundo: Destaque: A invasão da Venezuela

Parte 3: Mundo: Guerra da Ucrânia

Parte 4: Mundo: Outras regiões e temas

 

Assuntos abordados neste texto:

 MUNDO

 Guerra da Ucrânia

·       O campo de batalha

o   A tomada de Siversk pelos russos

o   O bolsão ucraniano de Pokrovsk

o   A retomada de Kupyansk pelos ucranianos

o   As informações falsas do Kremlin e os blogueiros militares russos

o   A inflexão na relação de forças

o   A conscrição de reservas inativas na Rússia

·       Escaladasna guerra no ar e no mar

o   Os ataques ucranianos à frota das sombras

o   Os ataques ucranianos às plataformas de petróleo do mar Cáspio

o   Os ataques ucranianos às refinarias petrolíferas russas

·       As negociações de paz e de garantias pós-guerra

o   O Plano de 28 pontos

o   O Plano de 19 pontos

o   O Plano de 20 pontos

o   O acordo da Coalizão dos Dispostos

·       Aguerra híbrida e as preparações para uma guerra ampla

o   O desvinculamento da União Europeia do gás russo

o   Os cortes dos cabos submarinos no Báltico

o   Os balões de Belarus sobre a Lituânia e a Polônia


Guerra da Ucrânia

 

 
Avanços russos e avanços de contra-ofensivas ucranianas até 14/01/2025. Fonte: ISW e CT

 

O campo de batalha

O texto abaixo foi feito com base principalmente nos relatórios sobre a guerra da Ucrânia do Instituto para Estudos sobre a Guerra (ISW). 

Na Ucrânia, o principal avanço russo em dezembro foi a tomada de Siversk, na oblast (província) de Donetsk, no leste do país. Essa cidade é estratégica porque fica num terreno elevado e por isso facilita a sua marcha para oeste, em direção a Sloviansk, a extremidade norte do Cinturão de Fortalezas ucraniano, cujo sul já está sendo assediado em Kostyantynivka

O Cinturão de Fortalezas é a espinha dorsal da defesa ucraniana na oblast de Donetsk – e a principal de toda a defesa do país –, e é formada por quatro cidades principais, distribuídas no sentido norte-sul (Sloviansk, Kramatorsk, Druzhkivka e Kostyantynivka). Ocupar toda a oblast de Donetsk é um dos principais objetivos das tropas russas no momento, mas, segundo o Instituto de Estudos sobre a Guerra (ISW), dos EUA, os invasores, no ritmo atual, devem levar anos para conseguir conquistar o cinturão.

Outro avanço digno de nota no mês foi no bolsão ucraniano de Pokrovsk, também na oblast de Donetsk, mas mais para sudoeste. Era um entroncamento ferroviário importante, o que lhe dava importância estratégica (facilitaria o acesso a outras regiões), mas, após os 21 meses que os russos demoraram para tomá-la, o local foi destruído e essa importância estratégica foi muito diluída. De qualquer forma, não há confirmação independente dessa vitória e a credibilidade das informações sobre o campo de batalha vindas do Kremlin tem se degradado bastante nos últimos meses, de modo que é necessário ser cauteloso com elas.

A esses dois avanços junta-se um terceiro, ocorrido no fim de novembro, quando os invasores alvançaram Hulyaipole, mais ainda para sudoeste. A importância desta última é que ela tende a colocar em perigo toda a frente sul. Nesta frente, as forças russas que tentam atacar em direção ao sul têm ricocheteado nas defesas ucranianas, mas a tomada de Hulyaipole os permitirá atacar a mesma região avançando a partir do leste, em direção a oeste, contornando as defesas inimigas e alcançando-as pela retaguarda, ou seja, pelo norte. Mas, como o avanço russo é muito lento, o mais provável é que os ucranianos consigam construir linhas de defesas apropriadas para evitar isso.

Apesar desses sucessos importantes, desta vez houve uma diferença com os casos anteriores de avanços dos invasores durante o ano. Para concentrar as forças necessárias para tomar Pokrovsk e Hulyaipole, eles tiveram que retirar recursos de outros setores da frente de batalha.  Com isso, os ucranianos puderam avançar naqueles pontos, especialmente no trecho dentro da oblast de Dnipropetrovsk (que fica depois da de Donetsk, em um trecho em que os invasores conseguiram atravessá-la até a sua fronteira do outro lado) e, mais espetacularmente, em Kupyansk, no disputado rio Oskill (no nordeste da Ucrânia), que os defensores retomaram quase toda. A retomada de Kupyansk pelos ucranianos foi um dos maiores reveses da Rússia em 2025.

A diferença descrita acima indica (isso é uma interpretação minha, baseada no que tenho visto nos últimos vários meses nos relatórios do ISW) uma aparente inflexão na relação de forças entre ucranianos e russos. Estes últimos ainda avançam muito lentamente, mas com ainda mais dificuldade.

A inflexão acontece também na dinâmica de formação de tropas na Rússia: em dezembro, Putin decretou a conscrição (ou seja, o alistamento involuntário) de parte dos reservistas inativos do país. Ele estava evitando a incorporação involuntária desde o seu experimento de mobilização de 2022, à qual a reação muito adversa da população aparentemente o assustou bastante. A mudança de rumo certamente é produto do enorme e contínuo número de baixas russas no campo de batalha – de 1º de janeiro até 9 de dezembro, foram 4669 km² tomados ao custo médio de 83 baixas/km², segundo o ISW. Isso é um avanço ridículo para o tamanho do esforço: apenas 1% do território ucraniano em todo o ano de 2025 (o que significa que, nesse ritmo, os russos demorarão cerca de oitenta anos para tomar todo o resto do país).

A guerra no ar e no mar deu em dezembro novos marcos de escalada: os ucranianos passaram a atacar navios da “frota das sombras” russa (embarcações ocultas usadas para contornar as sanções ocidentais) e também plataformas de petróleo no mar Cáspio. Os bombardeios de refinarias russas passaram a ser mais eficientes, mirando as saídas dos produtos refinados. Existe uma boa razão para essa escolha. Com isso, os produtos refinados, que a população consome, encarecem (porque rareiam), ao passo que o petróleo cru, acumulado sem uso, acaba tendo sua venda desviada para a exportação, abaixando ainda mais o seu preço no mercado internacional e os rendimentos da Rússia com sua venda. Guerra é guerra.

 

Negociações de paz

As negociações de paz e de garantias contra uma nova agressão russa à Ucrânia no pós-guerra continuam de vento em popa, apesar de Putin rechaçá-las todas. Em novembro, tinha havido o assustador plano de 28 pontos de Trump, negociado só entre Estados Unidos e Rússia, tão severo com ucranianos e tão suave com os russos que na prática equivalia a uma exigência de capitulação da Ucrânia – com o agravante de Trump ter também lançado para os ucranianos um ultimato exigindo que eles o aceitassem em uma semana. Mesmo assim, o presidente russo o rejeitou, alegando que não contemplava nem a troca do governo ucraniano (por um títere de Moscou) nem o recuo das fronteiras da Otan aos seus limites de 1997 – o que significa querer que a organização expulse todos os seus membros que pertenciam ao antigo bloco soviético, algo totalmente irreal.

Essas posições irredutíveis russas não desanimaram os negociadores. Seguiu-se um plano de 19 pontos amarrado por EUA, Ucrânia e União Europeia, que diluiu vários elementos do anterior adversos aos ucranianos, inclusive retirando artigos que bizarramente diziam respeito apenas às relações bilaterais entre Estados Unidos e Rússia. Depois, houve um outro de 20 pontos proposto pelo próprio Zelensky, que é o que anda sendo negociado agora pelas três partes. O foco no momento são as garantias de segurança à Ucrânia após o fim do conflito.

Começou também uma negociação sobre o que será feito no pós-guerra dentro da Coalizão dos Dispostos, um conjunto de países europeus decididos a enviar recursos para a Ucrânia. No momento, o grupo está negociando um acordo entre seus membros sobre as garantias pós-guerra contra uma nova invasão russa. A proposta inclui a presença de tropas de alguns desses países em território ucraniano para depois do fim do conflito, algo que é anátema para Putin. Pela primeira vez, os Estados Unidos participaram, apesar de não fazerem parte do grupo. Diante da possibilidade concreta da primeira decisão vinculativa entre europeus sobre o envio de tais tropas, a reação da Rússia foi jogar um devastador míssil Orishnik sobre uma instalação da indústria de defesa ucraniana em Lviv, cidade perto da fronteira com a Polônia, aparentemente para mandar uma mensagem ao Ocidente.

Mesmo com Putin irredutível, essas conversações são importantes porque vão estabelecendo marcos que servirão de referência para quando esses planos forem possíveis de serem implementados. É melhor, por exemplo, que se chegue naquele ponto com algumas posições difíceis já tendo sido tomadas, como Zelensky concordando em negociar território, do que começar isso do zero quando for necessário que elas caminhem mais rapidamente.

 

A guerra híbrida e as preparações para uma guerra ampla

O continente europeu, porém, se prepara para a guerra. A União Europeia continua seu progressivo desvinculamento da economia russa, com a decisão, em dezembro, para que cheguem ao fim todas as compras de gás russo até o fim de 2026 (as importações com contrato mais longo deverão terminar até setembro de 2027). O bloco também conseguiu finalmente aprovar o uso do dinheiro russo congelado em seus bancos para a reconstrução pós-guerra da Ucrânia, após muita hesitação pelo medo do precedente que semelhante decisão poderia produzir para a segurança financeira geral.

Os russos também se preparam. Em dezembro, houve cortes em dois cabos submarinos de comunicação no mar Báltico. Dois navios suspeitos foram apreendidos pelos escandinavos. Os episódios se enquadram no contexto da “guerra híbrida” russa contra o Ocidente, com a qual testam as possibilidades de atacar a infraestrutura de comunicação e energética inimigas no caso em que estoure no futuro uma guerra ampla entre a Rússia e a Otan; mas também tentam desencorajar o Ocidente a aumentar seu envolvimento no conflito. No fim de dezembro, houve um ataque hacker contra o sistema elétrico da Polônia que, segundo o ministro dos Assuntos Digitais polonês, ameaçou causar um blecaute no país.

Belarus tem sido bastante ativa nessa guerra híbrida, apesar de não participar do combate direto. Enviou tantos balões para os céus da Lituânia nos últimos meses que esta teve que decretar emergência em nível nacional, pois estavam provocando paralisações em série de seus aeroportos. Os bielorrussos pararam quando assinaram um acordo com os Estados Unidos, pelo qual recebiam a contrapartida de suspensão das sanções americanas contra a importação de sua potassa (um produto usado para fabricação de fertilizantes). No entanto, passou então a lançá-los sobre a Polônia.

 

 

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