Janeiro de 2026: Mundo Parte 2/7: Venezuela e resto da América Latina

O novo governo chavista venezuelano está fazendo o que Trump quer, para perplexidade dos analistas políticos. A Assembleia Legislativa está votando uma anistia aos presos políticos e reformou a regulamentação do setor petrolífero para permitir a reentrada das empresas estrangeiras. As relações diplomáticas com os EUA estão sendo aos poucos reconstituídas. Mas a nova presidente, Delcy Rodríguez, tem que se equilibrar entre as alas moderadas e radicais e a pressão da oposição. María Corina Machado, a principal líder opositora, deu seu prêmio Nobel a Trump.

A Rússia não conseguiu reagir à intervenção americana, a não ser tentando ajudar a furar o bloqueio ao petróleo do país com petroleiros com sua bandeira e já sob sanções anteriores, que no entanto começaram a ser apreendidos em pleno oceano por americanos, franceses e britânicos.

Sem o fluxo do petróleo venezuelano, Cuba corre o risco sério de uma crise energética iminente. Trump também obteve uma vitória no Panamá com o afastamento dos chineses do Canal por decisão da Justiça local. A tensão dos Estados Unidos com a Colômbia, no entanto, foi revertida com um surpreendente encontro muito amigável de Trump com Gustavo Petro na Casa Branca.

Ver também os acontecimentos da edição anterior.

Cobertura desta edição: 15/01/2026 a 11/02/2026


Índice

Índice geral desta edição


VENEZUELA


RESTO DA AMÉRICA LATINA
Cuba
Panamá
Colômbia

Referências


O chavismo obedece

O novo governo venezuelano do regime velho começou a libertar prisioneiros políticos aos poucos, uma das exigências dos Estados Unidos para levarem a sério as suas intenções colaborativas. Uma anistia geral a todos eles está tramitando na Assembleia Legislativa e já houve a aprovação no primeiro turno, por unanimidade. O órgão legislativo é dominado pelo chavismo[1]. A célebre cadeia do Helicóide foi fechada. Talvez aquele cuja libertação foi mais celebrada foi Javier Tarazona, diretor da ONG Fundaredes, defensora dos direitos humanos, um dos principais prisioneiros políticos do país, até então detido no Helicóide.

A velocidade com que o regime venezuelano está se moldando internamente à nova realidade vem deixando os analistas perplexos. Uma importante reforma nas regras do setor petrolífero foi aprovada por unanimidade no a Assembleia Nacional do país[2]. Com ela, foi aliviada a carga tributária para as empresas exploradoras e foram levantadas restrições de exploração e venda. Além disso, foi permitido que a resolução de disputas seja feita por tribunais internacionais, ao invés de estarem restritas à Justiça venezuelana, dominada por asseclas de Maduro. As empresas americanas estavam recusando o pedido de Trump para que voltassem a investir no país (ver edição anterior), alegando que com a legislação como estava, isso não era possível, pois fora por causa dela que muitas saíram de lá.

Ao mesmo tempo, a nova presidente Delcy Rodríguez tenta evitar que toda essa confusão resulte num crescimento político da oposição e também encara a difícil e perigosa missão de evitar que ela degrade num colapso do equilíbrio com a ala crítica à aproximação com os Estados Unidos, incluindo dentro do setor militar. Já substituiu os comandantes de 12 regiões militares do país e de alguns órgãos militares subsidiários ao governo, como a Guarda de Honra presidencial, que não poderia ficar de fora[3]. Digna de preocupação é a ala chavista radical. Para acomodá-la, nomeou para ministra do Turismo Daniela Cabello, filha do principal líder daquele grupo, Diosdado Cabello, ministro do Interior[4]


Corina premia Trump

María Corina Machado, a líder opositora venezuelana que havia fugido do país para receber seu prêmio Nobel da Paz na Suécia, encontrou-se com Donald Trump nos Estados Unidos e o presenteou com seu prêmio.

O prêmio é intransferível, dizem as normas do Nobel. Ela ter sido agraciada no ano passado já havia sido objeto de críticas de muita gente, que ficou procurando alguma contribuição que ela tivesse feito para a paz. Depois das pressões nada sutis de Trump para que ele mesmo recebesse a honraria por causa de suas participações em acordos de paz ao redor do mundo, ficou para muitos uma impressão de que o comitê do Nobel havia decidido por uma solução intermediária para apaziguá-lo. E agora, eis que o objeto físico do prêmio acaba indo mesmo parar nas mãos do presidente estado-unidense. O saldo final foi que María Corina saiu um tanto queimada com muitos que a apoiavam e admiravam. 


O lado dos Estados Unidos

Os americanos, por seu lado, já começaram a reconstituição das suas relações diplomáticas com a Venezuela. Ainda que não tenham reaberto a embaixada, já nomearam uma representante diplomática dos Estados Unidos só para a Venezuela, Laura Dogu. Até agora, o responsável pelos assuntos venezuelanos na diplomacia americana era um funcionário da embaixada dos EUA na Colômbia, John MacNamara, encarregado do setor de negócios com os colombianos num órgão da embaixada chamado Unidade de Assuntos da Venezuela. Dogu continuará trabalhando em Bogotá, nessa mesma unidade, enquanto a embaixada em Caracas não for aberta.

Tudo isso não é tão pacífico dentro dos Estados Unidos. Os democratas tentaram aprovar na Câmara uma resolução que impediria Trump de realizar novas ações militares na Venezuela – uma das formas de pressão para que o regime venezuelano colabore com os interesses americanos é ameaçar uma nova invasão caso isso não aconteça. Alguns republicanos concordavam com os democratas e com isso a votação empatou. O vice-presidente, J. D. Vance, teve que dar o voto de minerva para que a tentativa não passasse.


A Rússia e os petroleiros fantasmas

A Rússia, apesar de reações verbais veementes logo após a intervenção em si, não pode fazer muito mais. Para não dizer que não fizeram nada, nas semanas anteriores à intervenção, enquanto Trump fazia suas declarações bombásticas e destruía barcos de supostos traficantes pelo Caribe (ver edição anterior), dúzias de navios-tanque que transportavam petróleo venezuelano trocaram suas bandeiras pela bandeira da Rússia. Antes, usavam bandeiras ilegais ou alugadas de países que costumam cedê-las mediante pagamento como fonte de renda, tais como Gabão, Libéria, Timor Leste, Malauí e Panamá. A ideia talvez fosse que isso blindasse melhor os russos para furar o bloqueio americano.

Não deu muito certo: oito[5] desses petroleiros foram capturados pela marinha dos Estados Unidos, um deles após uma perseguição espetacular até que foi finalmente interceptado entre a Islândia e a Escócia. A França também tem feito isso, com a colaboração da marinha britânica (abordou um em setembro e outro em janeiro deste ano)[6].

Na verdade, a prioridade absoluta de Putin é a guerra na Ucrânia, como ele já havia deixado claro quando abandonou à sua própria sorte vários aliados de sua esfera de influência: a Armênia, aliada histórica (frente a um ataque do Azerbaidjão que conquistou a região disputada do Alto Karabakh em setembro de 2023); o ditador sírio Bachar-al-Assad (que fugiu para Moscou após ser derrubado em dezembro de 2024); e o Irã (diante do bombardeio de Israel e dos Estados Unidos em junho de 2025). Para vencer a guerra, ela precisa evitar desentendimentos com Donald Trump, mesmo que tenha que fazer esse tipo de sacrifício.

Porém, é também verdade que ela vem tentando se adaptar às novas condições de sua esfera de influência – por exemplo, conseguiu reconsolidar sua presença na Síria após a queda de seu protegido. Seria teoricamente bem mais fácil Putin manter sua mão dentro da Venezuela, uma vez que só Maduro foi eliminado do governo. A se ver como ele se equilibra diante da exigência de Trump de que Delcy Rodríguez se afaste de Putin.

Uma análise cuidadosa da “não-resposta” da Rússia às ações dos Estados Unidos na Venezuela aparece em um artigo de 16 de janeiro de Karolina Hird [7], do ISW.


Outros países da América Latina


Cuba – Trump aproveita a intervenção na Venezuela para enforcar o regime cubano por meio de uma crise energética. A Venezuela era um dos principais fornecedores de petróleo para a ilha. Outro é o México. No entanto, este parou também de fornecer-lhe o produto, por causa das ameaças de Trump de impor tarifas a países que o comerciem com os cubanos[7.1].

Panamá – A Suprema Corte do país pôs os chineses fora do Canal do Panamá, como queria Trump (que deseja reanexar a Zona do Canal aos EUA). Em março do ano passado, um consórcio de empresas ocidentais tentava um acordo para comprar os portos da CK Hutchison, uma companhia sediada em Hong Kong. O governo chinês, porém, que tem poder sobre suas empresas, bloqueou a transação. O caso foi parar na Suprema Corte do Panamá. No dia 29 de janeiro, o tribunal decidiu que o acordo violaria a constituição do país. Enquanto um novo operador para os portos não é encontrado, eles ficam temporariamente com uma empresa dinamarquesa. É uma vitória para Trump e muitos entendem que a decisão não teria acontecido sem a pressão dos Estados Unidos[8].

Colômbia –a situação com a Colômbia melhorou de repente no início de fevereiro. Próximo da intervenção na Venezuela, Trump havia ameaçado o presidente colombiano, Gustavo Petro, e chegou a dizer que ele seria “o próximo”; em janeiro, ameaçou uma intervenção militar no país. No entanto, no começo do mês seguinte, os dois tiveram um telefonema e depois se reuniram na Casa Branca, onde trocaram elogios e tiraram fotos sorridentes.


Referências:

[1] Valor Econômico 06/02/2026.  
[2] Valor Econômico 30/01/2026.  
[3] Valor Econômico 26/01/2026. Editorial 
[4] Le Monde 02/02/2026  
[5] O oitavo foi relatado em ISW, Russian Offensive Campaign Assessment, 09/02/2026 
[6] ISW, Russian Offensive Campaign Assessment, 22/01/2026 ; Le Monde 25/01/2026 
[7] Karolina Hird, “Russia’s non-response to US actions in Venezuela reveal a Kremlin balancing act”, ISW, 15/01/2026 
[7.1] Valor Econômico 10/02/2026
[8] The Economist 05/02/2026

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