Janeiro de 2026: Brasil Parte 2/2: Outros temas
Os apoiadores de Jair Bolsonaro não conseguiram que ele pegasse prisão domiciliar, muito menos que fosse libertado, mas lograram que fosse transferido a uma prisão maior. No entanto, a pré-candidatura presidencial de seu filho Flávio é contestada por diversas frentes da oposição, parte delas aglutinada dentro do PSD de Gilberto Kassab.
Lula sancionou o Orçamento de 2026, vetando emendas parlamentares que violavam a lei. Começam a aparecer as estatísticas econômicas de 2025. O comércio internacional brasileiro seguiu a tendência mundial e cresceu, atingindo um recorde, a despeito das tarifas de Trump. Já o setor ambiental sofreu um golpe com o colapso da Moratória da Soja, que não resistiu à contestação judicial.
Ver também, nesta edição: O Caso Master
Cobertura desta edição: 15/01/2026 a 11/02/2026
Índice
Índice geral desta edição
BRASIL
- Resumo
- Pré-candidaturas: redemoinho na espuma
- Bolsonaristas pelo seu líder
- O Orçamento da União de 2026
- O comércio brasileiro sob as tarifas
- Ambiente: O colapso da Moratória da Soja
Pré-candidaturas: redemoinho na espuma
Movimentos de pré-candidaturas são densa espuma política, mas às vezes um redemoinho no meio do sabão chama a atenção. Um desses se configurou quando Ronaldo Caiado, governador de Goiás, saiu “saído” do União Brasil e se mudou para o PSD de Gilberto Kassab, elevando assim a três o número de presidenciáveis e dois os de postulantes para suceder Jair Bolsonaro contra a vontade deste dentro daquele partido. Os outros são os também governadores Ratinho Júnior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.
Lula ainda é o favorito, mas neste momento todo o restante joga é para chegar ao segundo turno. Um problema de cada vez. Assim, Kassab, com sua estratégia, aumenta as chances de ter um aliado seu naquela fase, enquanto mantém o canal de diálogo com o PT, para o caso de o favoritismo ser confirmado. Mas, ao mesmo tempo, produz também um refluxo na fragmentação da oposição, porque apenas um candidato poderá emergir daquele seu cadinho – ainda mais com a percepção crescente de que Tarcísio preferirá mesmo a reeleição em São Paulo. Sobram Romeu Zuma, de Minas, e Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio, imposto por seu pai Jair no fim de 2025. A divisão das candidaturas oposicionistas se reduz para três.
Não deixa ser curioso esse ajuntamento de disputantes do eleitorado bolsonarista numa agremiação que nunca flertou a sério com o ex-presidente. A fragmentação do bolsonarismo pode estar desacelerando, mas a dissolução do que o ex-presidente representa não parece estar.
Bolsonaristas pelo seu líder
Jair Bolsonaro mudou de cela para uma maior e com vários cômodos, na chamada “Papudinha”, feita para quatro pessoas (mas ele ficará sozinho). Isso depois de uma pressão da sua defesa e de Michelle Bolsonaro ter conversado com Alexandre de Moraes.
O resultado da intervenção de Michelle é revelador. Ela mudou para uma postura menos conflitiva que os outros defensores do ex-presidente, como apontou Dora Kramer e parece legitimamente interessada no bem-estar do marido, ao invés de em meramente escalar o confronto com o Judiciário para fazer média com a claque, como aparentam certos outros “apoiadores”.
Já os advogados de defesa lutam pela prisão domiciliar, alegando motivos de saúde; no entanto, para Alexandre de Moraes, os laudos médicos não têm dado respaldo a essa exigência. De qualquer forma, na nova cela, será possível instalar aparelhos de fisioterapia (um pedido da defesa) e o presidiário poderá ter a assistência de seus próprios médicos (não só os da polícia).
Bolsonaristas mais radicais, como Nikolas Ferreira, lutam é pela absolvição do ex-presidente e de todo mundo do 8 de janeiro – a anistia. Nikolas ajuntou para isso 18 mil pessoas em uma passeata que partiu de Parati, Minas Gerais, e caminhou por 240 quilômetros até Brasília.
Entre elas, porém, faltaram as principais lideranças políticas aliadas, incluindo a primeira-dama Michelle Bolsonaro, que apareceu só no fim. E, já na capital federal, a caravana ainda foi surpreendida durante uma tempestade por um inacreditável raio que atingiu um carro de som e espraiou-se dali através da multidão, ferindo 89 pessoas e mandando 47 para o hospital.
O Orçamento da União de 2026
Lula sancionou o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026, que havia sido aprovado pelo Congresso Nacional em dezembro. O que causa mais polêmica é a dimensão das emendas parlamentares, que ficaram com R$ 12 bilhões a mais de em 2025, dando no total R$ 62 bilhões. Havia emendas que violavam a lei sobre isso de 2024, aquela que foi feita pelo Congresso após um acordo com o STF. Estas emendas foram vetadas por Lula (deram R$ 400 milhões no total). Normalmente, os dados sobre o Orçamento da União têm caráter bastante fictício, mas eis alguns dados sobre ele, segundo uma matéria do Valor Econômico de 15 de janeiro:
- Total de gastos previsto: R$ 6,54 trilhões
- Educação: R$ 233,7 bilhões (em 2025, foram R$ 206,1 bilhões)
- Saúde: R$ 271,3 bilhões (em 2025, foram R$ 254,1 bilhões)
- Salário mínimo: R$ 1.621 (era de R$ 1.518).
A meta de resultado primário ficou em R$ 34,2 bilhões, 0,25% do PIB.
Alguns valores sobre os principais programas sociais:
- Bolsa Família: R$ 158,63 bilhões
- Pé-de-Meia: R$ 11,47 bilhões (é um programa de incentivo para estudantes do ensino médio)
- Gás para Todos: R$ 4,7 bilhões
O comércio brasileiro sob as tarifas
No início do ano, começam a aparecer estatísticas econômicas sobre 2025. Entre as mais interessantes estão as sobre os efeitos da guerra comercial de Trump.
Que foram bastante antiintuitivos, porque a previsão de hecatombe global não se confirmou. Veja-se o caso do Brasil. Sim, é verdade que as nossas exportações para os Estados Unidos caíram 6,6% em 2025 em comparação com 2024; porém, somadas as vendas para o mundo todo, houve uma alta de 3,5%. Por exemplo, as exportações para a China subiram 6% e as para a União Europeia, 3,2%. Na verdade, houve recorde da série histórica tanto nas exportações totais brasileiras como nas importações totais, e também no superávit comercial (a diferença entre as duas). Assim como nas exportações para e nas importações vindas da China.
Por esses últimos dados, neste momento a China é, de longe, o maior destino das nossas exportações, perfazendo 28,7% do total. A UE fica com 14% e os EUA, com 10,8%.
Ambiente: O colapso da Moratória da Soja
Notícia ruim para o meio ambiente: colapsou o acordo da Moratória da Soja.
Ele havia sido firmado voluntariamente por empresas do setor em 2006, com apoio do governo federal, para que elas não comercializassem soja proveniente de áreas da Amazônia desmatadas desde 2008. Apesar do apoio, porém, houve oposição de outros atores importantes, que acionaram o Cade. Em agosto, esse órgão entendeu que o acordo violava a livre concorrência e ordenou o seu fim.
Mas não foi essa a causa de seu colapso, mas sim uma lei aprovada pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso, que vetava o acesso a benefícios fiscais a empresas que fossem signatárias de acordos comerciais com compromissos mais rigorosos do que a legislação estadual – como era o caso da Moratória da Soja.
Em um primeiro momento, essa lei foi suspensa por uma liminar da Justiça, o que deu uma sobrevida ao acordo. O golpe fatal veio quando o prazo de validade da liminar venceu, no dia 31 de dezembro. A lei então entrou em vigor. Diante disso, a Abiove, que representa as vinte maiores comercializadoras agrícolas do mundo, saiu do acordo. A previsão é que provavelmente isso se traduzirá no seu fim.
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