Janeiro de 2026: Brasil Parte 1/2: O caso Master

Em 18 de novembro, o Banco Central decretou a liquidação do banco Master, um banco de tamanho médio em sérias dificuldades financeiras. Seu dono, Daniel Vorcaro, foi preso no mesmo dia, por causa das fraudes detectadas na instituição que também envolviam a CBSF, antiga Raeg. O processo foi parar no STF (ver edição anterior). 

Mas Vorcaro tinha tentáculos pela política e pelo sistema judiciário brasileiro adentro. O TCU e uma subcomissão do Senado começaram a investigar a atuação do BC no caso. Atitudes polêmicas do relator do processo no Supremo, Dias Toffoli, alimentaram o mal-estar. Revelações em série na imprensa sobre sua proximidade com negócios de parentes de Vorcaro acabaram levando-o a renunciar à relatoria do caso, que passou a André Mendonça. Ganhou impulso, com tudo isso, um movimento para que fossem redigidas normas de conduta para membros do STF. Enquanto isso, o tema continuou se desdobrando e a própria Raeg acabou sendo também liquidada.

Ver também: Dezembro de 2025.

Cobertura desta edição: 15/01/2026 a 11/02/2026


Índice

Índice geral desta edição

CASO MASTER



A frente do TCU: Distensão

Em dezembro, uma tentativa do Tribunal de Contas da União (TCU) de inspeção no Banco Central a respeito de sua atuação no caso Master, inclusive com ameaças de reverter a liquidação do banco, havia sido rechaçada. No entanto, em janeiro um acordo entre os dois órgãos definiu que ela acontecerá, sim, mas de modo menos agressivo. O Tribunal desistiu da possibilidade de reverter a liquidação do Master e concordou que a inspeção seja limitada, respeitando o sigilo bancário e fiscal dos investigados; e o BC, por sua vez, suspendeu seu recurso contra a investigação.


A frente do STF, muito estranha

O lado do STF, porém, prosseguiu de modo preocupante. Isso, apesar de ter havido uma distensão inicial: Dias Toffoli, que havia estranhamente tentado impedir a Polícia Federal de ter acesso ao material apreendido na sua última operação no caso do Master colocando-o sob guarda do STF, cedeu em parte: o Supremo não ficaria com os itens, mas eles também não foram enviados para a PF, mas sim para a Procuradoria-Geral da República. Em um primeiro momento, na prática não mudou nada, porque a polícia também não poderia acessá-los ali. Pouco depois, porém, houve um segundo recuo e Toffoli autorizou quatro peritos escolhidos por ele para verificar o material. 

Após essa distensão, porém, as coisas pioraram em outra frente. Seguiram-se mais revelações na imprensa de aparentes tentáculos de Vorcaro em direção à Corte: parentes de Toffoli possuíam um resort administrado por uma empresa (Tayayá) da qual tinha ações o fundo de investimento Arleen, administrado pela Raeg (atual CBSF), fundo este ligado a um cunhado de Vorcaro; deste fundo, era cotista um outro fundo de investimento também administrado pela Raeg e assim por diante até se chegar finalmente a um fundo que estava sendo investigado no caso Master (os outros dessa sequência, não). É uma linha longa, mas, como a técnica da fraude era justamente usar uma rede intrincada de fundos administrados pela Raeg para obscurecê-la, a matéria da Folha que dissecou essa teia aprofundou o mal-estar que já estava se instalando na sociedade por causa das atitudes do ministro do Supremo. 

O que se viu a partir de então foi uma escalada de degradação da imagem de todo o Supremo Tribunal Federal perante a opinião pública – pelo menos aquela visível nas colunas dos jornais. Dois colegas de Toffoli, Gilmar Mendes e Edson Fachin, este presidente da Corte, saíram em defesa do ministro, dando declarações à imprensa, em eventos e em artigos para jornais. A coisa de gosto ruim é que o STF foi justamente o bastião de defesa da democracia no meio da insanidade do período Bolsonaro. 

A estranha situação tem feito aumentar a pressão para que Toffoli devolva o caso para a primeira instância. Isso poderia ser feito se ele concluir, pelos depoimentos, que a razão de o processo ter ido parar no STF – a menção de um deputado no processo – não é suficiente. A primeira rodada de depoimentos já acabou – e o ministro suspendeu o sigilo de seu conteúdo, a pedido do Banco Central –, mas vários dos depoentes pediram para adiar suas falas para ter mais tempo de analisar os autos e deve haver outras sessões.

Nota após a data de fechamento: Em 12 de fevereiro, a Polícia Federal enviou um relatório a Edson Fachin, presidente do STF, que citava conteúdos de mensagens do celular de Vorcaro que mencionavam Toffoli. Este tinha havia pouco admitido que era sócio da empresa (Maridt) que em 2021 vendera parte de sua participação no resort dos Toffoli, o Tayayá, ao fundo Arleen, aquele ligado ao cunhado de Vorcaro. As mensagens discutiam repasse de dinheiro para Toffoli. A Folha de S. Paulo publicou no dia 13 uma manchete na primeira página que usa a expressão “possíveis crimes do ministro”. Seguiu-se uma reunião dos membros do Supremo. Nela, Toffoli decidiu finalmente ceder à pressão social e de seus colegas e retirar-se da relatoria do caso, que então foi transferida por sorteio para André Mendonça. Mas, antes, ordenou que os conteúdos de todos os celulares de posse da PF relacionados ao caso Master fossem transferidos para o STF.


Outros desdobramentos

Tudo isso desencadeou um debate sobre a conveniência da elaboração de um código de conduta para os membros do Supremo. Dentro do STF, Edson Fachin, o seu presidente, é o principal defensor da ideia. No início de fevereiro, quando a Corte voltou ao trabalho, nomeou para a relatoria Carmen Lúcia, presidente do Tribunal de Superior Eleitoral, que tinha acabado de formular orientações nesse sentido para os juízes daquele setor. 

Toda essa confusão faz com que outros órgãos também queiram inspecionar o que anda acontecendo. No Senado Federal, o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), Renan Calheiros, criou uma comissão multipartidária para acompanhar as investigações sobre o banco Master. Esse grupo terá poderes para ouvir testemunhas, requerer informações e fazer diligências nos órgãos envolvidos, inclusive no Banco Central (e também na PF, no STF, no TCU etc.). No entanto, o próprio Banco Central também está fazendo uma auditoria interna sobre o processo contra o Master, por sua própria conta.

Enquanto isso, as investigações continuavam. Um de seus principais resultados foi o BC decretar a liquidação justamente da própria Raeg (hoje CBSF), e também de uma fintech, o Will Bank. Sendo que a CBSF também havia aparecido na Operação Carbono Oculto, da PF, contra o crime organizado. O grupo Fictor, por sua vez, aquele que tinha tentado comprar o Master na véspera da liquidação deste último, teve uma crise de reputação por causa da impressão que acabou ficando de que aquela compra serviria para encobrir as fraudes descobertas; a situação espantou investidores, clientes, parceiros e fornecedores e ele acabou tendo que pedir recuperação judicial

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