Janeiro de 2026: Mundo Parte 6/7: Oriente Médio

O governo iraniano reagiu aos protestos no país com o pior massacre de manifestantes desde a Revolução Islâmica de 1979, com milhares de mortos. Uma intervenção militar americana pôde ser evitada, mas a tensão ainda persiste, com Trump querendo que o país pare de enriquecer urânio, limite sua produção de mísseis e suspenda a ajuda aos grupos aliados como Hezbolá, Hamas e os houthis.

Na Síria, o vasto território que os curdos haviam conquistado durante a luta contra o Estado Islâmico colapsou diante do avanço das tropas do novo governo central.

Trump lançou seu Conselho de Paz para Gaza, mas ampliou-o, convidando dezenas de chefes de Estado e pretendendo que ele atue depois em outras partes do mundo, como uma ONU paralela. Na Faixa de Gaza em si, Israel reabriu parcialmente a passagem de Rafah, mas tem limitado a atuação de organizações humanitárias e as expulsado do território.

Cobertura desta edição: 15/01/2026 a 11/02/2026

Índice

Índice geral desta edição

ORIENTE MÉDIO


Massacre no Irã

A violência da repressão do governo aos manifestantes no Irã (ver edição anterior) atingiu níveis extremos. O governo próprio admitiu cinco mil mortes. Donald Trump ameaçou intervir militarmente no país. Para enforcar o regime economicamente, chegou a ameaçar taxar de 25% as exportações dos países que comercializarem com o Irã (por enquanto, nada aconteceu). Mandou um grupo de porta-aviões, liderados pelo USS Abraham Lincoln, para a área.

No entanto, houve um esforço diplomático intenso de vários governos da região, principalmente Arábia Saudita, Turquia, Catar, Omã e Egito, que aparentemente conseguiu convencer Trump a pelo menos adiar sua intervenção. O americano justificou-se dizendo que a matança havia cessado. Mas o que houve foi que a rebelião fora mais uma vez abafada, desta vez por uma reação violentíssima do regime. Ninguém sabe quantos realmente morreram. O fato de um membro do próprio governo iraniano ter citado a cifra de 5 mil é assustador.

Apesar da distensão, as forças navais estado-unidenses continuaram se aglomerando na área. Alguns dias depois de esfriar o confronto com os europeus em torno da Groenlândia, o republicano voltou à carga verbal contra o Irã. Só que, desta vez, exigindo negociações sobre o seu programa nuclear (apesar de ele ter dito, no ano passado, que seu bombardeio ao país no final da guerra de 12 dias com Israel havia “obliterado” esse programa)[1]. Suas exigências são o fim do enriquecimento de urânio no país, limites ao seu programa de mísseis balísticos e o fim do seu apoio a seus aliados regionais (como o Hezbolá no Líbano, o Hamas em Gaza e os houthis no Iêmen)[2].

Assim que foram detectados movimentos diplomáticos do lado iraniano, na virada de janeiro para fevereiro, o americano voltou a falar suave, porém, ainda que mantendo suas três exigências. De fato, houve uma reunião prévia entre representantes do Irã e do Catar[3] e, pouco mais tarde, outra entre iranianos e americanos em Mascate, capital do Omã[4].


Revés curdo na Síria

Colapsou o domínio curdo na Síria. Ele havia se expandido muito além da área ocupada pelos próprios curdos durante a guerra contra o Estado Islâmico, na década de 2010. Naquele conflito, com apoio americano, os curdos tiveram um papel fundamental na derrota do EI na Síria, mas com isso ocuparam vastas áreas habitadas por população árabe – que passaram a ser governadas, na prática, pelas Forças Democráticas Sírias, um grupo formado majoritariamente por curdos.

As coisas mudaram depois da queda de Bachar al-Assad. Em 6 de janeiro, as tropas do novo regime e dos curdos entraram em choque. De lá para cá, as FDS haviam se tornado mais autoritárias – quem elogiasse o novo presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, podia ser preso –, muitas tribos árabes não as suportavam mais e, ao ver as forças do governo avançarem, elas se levantaram contra o domínio curdo.

O Exército sírio marchou rapidamente. A FDS foi forçada a aceitar um acordo pelo qual cedia duas províncias sírias ao governo – Raqqa (onde ficava a capital do Estado Islâmico) e Deir ez-Zor; os curdos permaneceram na de Hassakah, no extremo nordeste. No entanto, agora o governo quer que os curdos entreguem também Hassakah. A tensão permanece enquanto vige um cessar-fogo.

A área disputada inclui vários campos de prisioneiros do Estado Islâmico e de grupos terroristas de outros países, campos esses controlados pelos curdos – incluindo o maior deles, o de Al-Hol, que abriga 24 mil presos[5]. Isso causou preocupação – cem deles já fugiram no meio do caos[6] – e os Estados Unidos começaram a transferir milhares para o Iraque[7].

Além disso, o acordo também prevê a integração da FDS ao governo central. Na verdade, isso já estava previsto em um outro acordo anterior, assinado em março de 2025, mas a execução deste estava num impasse e ele nunca tinha saído do papel. Tudo isso, porém, ainda precisa ser chancelado definitivamente por uma reunião entre os dois líderes: o presidente sírio, Ahmed al-Charaa e o líder das FDS, Mazloum Abdi[8].


O Conselho de Trump para Gaza

Trump anunciou o lançamento do Conselho de Paz para Gaza durante o encontro do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, em um discurso à margem do evento – alguns dias antes de o corpo do último refém ter sido entregue a Israel, finalmente concluindo essa etapa do acordo de cessar-fogo no território, na primeira fase de um processo de paz[9].

Dias depois, Israel começou a cumprir outro item dessa primeira fase, abrindo parcialmente a passagem de Rafah, que dá para o Egito. No lado de lá vivem cerca de 100 mil palestinos que conseguiram fugir da Faixa de Gaza antes de a passagem ser fechada, nove meses depois do início da guerra. A abertura é só para um número limitado de pessoas a pé, que terão que andar 2,5 quilômetros até chegarem a alguma instalação.

Mas a fase seguinte parece irrealista, pois nela o Hamas teria que depor as armas. Além disso, o Conselho de Paz está correndo o risco de se transformar em outra coisa. Quando a ideia foi aprovada pela ONU, ainda no ano passado, a previsão era de que o grupo tivesse uma pequena quantidade de membros e que sua atuação fosse restrita a Gaza e apenas até 2027. De lá para cá, porém, Trump foi aumentando seu escopo e acabou convidando chefes de Estado de dezenas de países – inclusive Lula, Putin e Zelensky – e começou a dizer que, depois que sua missão em Gaza terminar, o conselho passaria a tratar de outras locais problemáticos do mundo e duraria por tempo indeterminado. Países que não contribuíssem com um bilhão para o financiamento do órgão só poderiam ser membros por três anos – quem contribuísse seria membro permanente. Seu presidente vitalício seria ninguém menos que o próprio Donald Trump. E ele teria poder de veto sobre qualquer proposição.

Vem crescendo a percepção de que a ideia de Trump é minar a capacidade da ONU de gerenciar conflitos e construir um aparato institucional paralelo para sustentar suas próprias intervenções internacionais. Diante de tudo isso, vários países já rejeitaram o convite do americano, como França, Reino Unido, Noruega e Suécia. Trump reagiu ameaçando taxar os vinhos franceses de 200% caso Macron não voltasse atrás na sua recusa. O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Stermer, tinha sido convidado em substituição a Tony Blair, que não era bem cotado entre os árabes (como dito na edição anterior); com sua recusa, Blair acabou voltando aos quadros do conselho.

No entanto, outros governos aceitaram. Em particular, um grupo de países muçulmanos e também Israel, além de países simpatizantes do regime de Trump, como Hungria, Belarus e Argentina, e outros[10]. No Brasil, o governo está estudando como reagir. Lula chegou a ligar para Trump – conversaram durante 50 minutos – e a sugerir que o conselho seja restrito só a Gaza e que o governo palestino também esteja entre seus membros.

Enquanto isso, perdura a situação crítica no território. Um grande problema é que o governo de Israel identifica a presença de membros do Hamas em várias organizações humanitárias que atuam ali. Em dezembro, avisou 37 delas de que elas deverão ir embora até 1º de março. Em 1º de fevereiro, foi a vez do Médicos Sem Fronteiras, que terão que sair até o fim do mês. A razão é que a organização se recusou a revelar ao governo a identidade de seus membros. Israel diz que nela há integrantes do Hamas e da Jihad Islâmica[11]

Tel-Aviv também executa uma ofensiva contra a UNRWA, a agência da ONU que cuida dos refugiados palestinos. Israel a acusa nada menos de ter em suas fileiras gente que participou do atentado do Hamas de 7 de outubro de 2023, que deu origem à atual guerra em Gaza[12]


Referências:

[1] The Economist 29/01/2026, “The World This Weed”  
[2] Valor Econômico 03/02/2026  
[3] Valor Econômico 02/02/2026  
[4] Valor Econômico 05/02/2026  
[5] Le Monde 20/01/2026  
[6] The Economist 23/01/2026  
[7] Le Monde 22/01/2026  
[8] Le Monde 18/01/2026  ; The Economist, 23/01/2026  
[9] Valor Econômico 29/01/2026  
[10] Valor Econômico 22/01/2026  
[11] Le Monde 02/01/2026  
[12] Le Monde 02/01/2026  

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