Janeiro de 2026: Mundo Parte 4/7: Estados Unidos
A guerra de Trump contra os imigrantes ilegais quase saiu do controle em Minneapolis. Chegou a haver na cidade três mil membros da ICE, a temida força enviada para caçá-los. Manifestantes foram às ruas. Após a segunda morte de um cidadão americano por forças da ICE durante os protestos, a reação no país chegou a travar a votação do orçamento federal no Congresso e quase houve outro shutdown.
Parte dos republicanos tem se colocado contra Trump em alguns assuntos específicos. Sua exigência de cortar pela metade o orçamento de agências de financiamento científico, inclusive o do Instituto Nacional de Saúde e o do departamento de ciências da Nasa, foi rejeitado pelo Congresso por larga margem. Já no seu confronto com o presidente do Fed, Jerome Powell, pressionando-o para abaixar os juros na marra a ponto de seus correligionários no Congresso jogarem a Justiça contra ele, o próprio Trump deu uma de TACO e acabou indicando para sucedê-lo uma figura respeitada pelo mercado, Kevin Warsh.
Na área internacional, Trump retirou seu país de dezenas de organismos internacionais, inclusive a UNFCCC, a que organiza as COPs climáticas. As diretrizes da política externa de seu governo foram explicitadas na Estratégia de Defesa Nacional.
Cobertura desta edição: 15/01/2026 a 11/02/2026
Ver também, nesta edição:
- Guerra comercial e os blocos econômicos
- “O lado dos Estados Unidos”, em Venezuela e mais América Latina
- Groenlândia
- “As negociações de paz”, em Guerra da Ucrânia
- “Irã”, em Oriente Médio
- “Auxílio americano sob condições trumpistas”, em África e Ásia
Índice
Índice geral desta edição
ESTADOS UNIDOS
- Resumo
- Os imigrantes ilegais
- O confronto com o Fed
- Ciência: O Congresso americano finalmente acorda
- A nova Estratégia de Defesa Nacional
- O mundo para os não-americanos
- Referências
Os imigrantes ilegais
A verdadeira guerra contra os imigrantes ilegais ou não que Trump trava no seu país chegou a níveis recordes em janeiro. Já houve seis mortes em cinco tiroteios só em janeiro. A bola da vez é a cidade de Minneapolis, para onde foram enviados 3000 agentes da federais do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) e da Patrulha de Fronteira[1]. Milhares de manifestantes tomaram as ruas para protestar contra a atitude do governo Trump.
Paradoxalmente, Minneapolis é uma cidade com relativamente poucos imigrantes ilegais[2]. No entanto, foram mortos ali dois manifestantes pelos agentes; a segunda morte, capturada por vídeo que viralizou (assim como a primeira), temperada com informações falsas e ofensivas difundidas pelo presidente (como a de que ambos seriam terroristas), disparou uma grande reação pública em todo o país e uma impressão de que a situação na cidade estava saindo de controle[3].
No ano passado, no país todo, foram 32 mortes sob custódia do ICE[4], e 69 mil pessoas foram detidas, 43% delas sem nenhuma acusação criminal[5] (das detidas em novembro, 70%[6]). Ao longo de 2025, enquanto Trump remodelava a ICE e a Patrulha de Fronteira e as transformava em verdadeiras milícias armadas que obedecem às suas ordens e a cujos membros foi informado pelo vice-presidente que terão, com essas palavras, “imunidade absoluta”[7] durante as operações, a aprovação à política antiimigração de Trump desceu de 10% positivos para 10% negativos[8].
A situação teve reflexos no Congresso, pois se aproximava o segundo prazo para a aprovação do orçamento, o que significava um novo perigo de shutdown do governo (o primeiro havia sido adiado em outubro[9] para o último dia útil de janeiro). Os democratas se recusavam a aprovar o financiamento do Departamento de Segurança Interna (DHS), responsável pelas ações da ICE junto com o resto do Orçamento; houve apoio de alguns republicanos e com isso eles conseguiram bloquear o avanço do pacote orçamentário.
O shutdown chegou a acontecer, mas poucos dias depois a Câmara e o Senado aprovaram uma solução de compromisso, em que o dinheiro do órgão foi aprovado, mas para apenas duas semanas. Enquanto isso, prosseguirão negociações para limitar o poder de ação do ICE[10].
A reação da sociedade e da política acabou fazendo com que Trump recuasse e substituísse o comandante da operação da ICE[11] e reduzisse o contingente em Minneapolis[12], mas a operação do ICE ali continuou até meados de fevereiro.
O confronto com o Fed
Trump passou o primeiro ano de seu novo mandato atacando virulentamente o presidente do Fed (o Banco Central americano), Jerome Powell, exigindo que ele baixasse os juros para 1% (estão na faixa de 3,50% a 3,75% – nos EUA, a referência de juros é definida por faixas). Chegou ao ponto de seus correligionários no Congresso jogarem a Justiça contra ele acusando-o de mentir aos parlamentares sobre uma reforma na sede da instituição. Houve até um manifesto em defesa de Powell assinado por presidentes de Bancos Centrais de vários países, inclusive do do Brasil, Gabriel Galípolo.
Isso, apesar de o mandato de Powell terminar já em maio. Temia-se que Trump escolhesse para substitui-lo um pau-mandado obediente. No entanto, no fim de janeiro, ele indicou Kevin Warsh, um economista de perfil técnico distante do populismo irresponsável do republicano.
É verdade que ele é crítico da atuação de Jerome Powell e tem ideias defendidas por pouca gente. Por exemplo, sempre foi contra o afrouxamento quantitativo, a estratégia principal de combate aos efeitos da crise de 2008, que constituiu em inundar o mercado de liquidez e reduzir os juros a zero, e agora ele quer enxugar essa liquidez, que ele acha que está por trás da inflação. Porém, é um profissional respeitado pelo mercado[13] e associado a uma conduta ortodoxa da política monetária[14].
Nada disso, porém, impediu, o Comitê Federal de Mercado Aberto (o Fomc) do Fed de interromper em janeiro a sequência de queda dos juros de referência nos Estados Unidos, mantendo-a na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano. A razão são os efeitos inflacionários das políticas de Trump, especialmente as tarifas contra os países e a repressão aos imigrantes ilegais, que aceitam salários menores.
Ciência: O Congresso americano finalmente acorda
Em geral, os republicanos na Câmara e no Senado parecem quase todos endossar as atitudes de Trump, pelo menos publicamente (inclusive em seus votos), seja por convicção ou por medo. Mas, em janeiro, viu-se uma notória exceção na área da ciência.
Em sua verdadeira guerra contra a ciência americana, Trump exigia, para o orçamento de 2026, um corte de 50% nas agências de financiamento científico em todo o país. O Congresso do país rejeitou a cifra por larga margem[15]. A verba do Instituto Nacional de Saúde (NIH) subiu 1% e a do departamento de ciências da Nasa abaixou só 1%, salvando 41 missões, muitas delas já operando no espaço. Trump cedeu e sancionou as alterações no dia 23. A se ver se se trata de uma inflexão na posição do Partido Republicano ou se é um caso apenas pontual.
Outros setores não tiveram tanta sorte, porém, especialmente o de energias renováveis. A pesquisa em energia solar teve um corte de 31% e a em energia eólica, 27%. Já a sobre carvão, um combustível fóssil e poluente, recebeu um aumento de 260%[16].
Além disso, independentemente de orçamentos, o governo de Trump vem cancelando sem justificativa financiamentos projetos, demitindo quadros e eliminando departamentos relacionados a pesquisa científica e a saúde dentro de órgãos públicos e privados (nestes, por meio de ameaças e cortes de financiamentos).
Um dos casos mais chocantes são os programas de vacinação, que vêm sendo reduzidos pelo secretário John Kennedy Jr., um cético sobre vacinas que acha que elas causam autismo e outras doenças (não causam). A administração vem também descontinuando a formação de bases de dados sobre mudanças climáticas, deletando relatórios e análises sobre o assunto e demitindo ou realocando especialistas com precioso know-how[17]. Muitos casos têm sido revertidos ou suspensos pela Justiça, mas grande parte ainda não foi alcançada por ela[18].
A nova Estratégia de Defesa Nacional
Depois de divulgada a Estratégia de Segurança Nacional nos Estados Unidos (ver edição anterior), o governo anunciou em janeiro a Estratégia de Defesa Nacional, que transforma os princípios do documento anterior em diretrizes mais concretas e detalhadas.
E ele é ainda mais incisiva. Fala em “restaurar a paz por meio da força”, define como prioridade estratégica o acesso militar e comercial dos EUA ao Canal do Panamá, ao Golfo do México (que Trump chama de “Golfo da América”) e à Groenlândia, menciona o “corolário Trump da Doutrina Monroe” (aquela que dizia, em 1823, “a América para os americanos”) e dá como exemplo desse corolário a intervenção na Venezuela. A preocupação principal é a influência dos Estados Unidos nas Américas – na versão anterior, no governo Biden, era a ascensão da China. A preocupação com a China continua, porém, apenas que agora, só em segundo plano.
O mundo para os não-americanos
Trump deu um enorme passo no seu desvinculamento com os órgãos internacionais que não lhe interessam quando retirou seu país de dezenas de organismos internacionais e órgãos da ONU – que incluiu a UNFCCC, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, o acordo mundial que tenta estabelecer políticas para combater as mudanças climáticas e seus efeitos (por meio, principalmente, das COPs, conferências das partes, anuais). Ou seja, os EUA não estarão mais em nenhuma das COPs.
Referências:
[1] The Economist 29/01/2026
[2] The Economist 29/01/2026
[3] The Economist 29/01/2026
[4] The Economist 29/01/2026
[5] Valor Econômico 26/01/2026
[6] The Economist 29/01/2026
[7] The Economist 29/01/2026
[8] The Economist 29/01/2026, gráfico 1
[9] The Economist 29/01/2026
[10] Valor Econômico 30/01/2026
[11] The Economist 29/01/2026, “The World This Week”
[12] Valor Econômico 05/02/2026
[13] Valor Econômico 02/02/2026 Editorial
[14] VE 03/02/2026 Luiz Schymura, "Desgastar instituições é a forma mais cara de governar"
[15] The Economist 05/02/2026
[16] The Economist 05/02/2026
[17] The Economist 05/02/2026
[18] The Economist 05/02/2026
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