Janeiro de 2026: Mundo Parte 1/7: Guerra Comercial e Blocos Econômicos

As tarifas escorchantes de Trump vão sendo reduzidas com a contrapartida, em geral, de investimentos dos países-alvo dentro dos Estados Unidos – é esse o objetivo de Trump. O último movimento nesse sentido foi com Taiwan – mas a Coreia do Sul está sob pressão por estar demorando demais a implementar a sua parte. O exemplo e os precedentes da estratégia do americano, porém, arriscam produzir uma “trumpização da política internacional”, cujo primeiro grande exemplo parece ser a guerra comercial regional entre Colômbia e Equador.

Diante de tudo isso, os blocos econômicos se reorganizam. No intervalo de dias, a União Europeia destravou e assinou dois mega-acordos, com o Mercosul e com a Índia. Os EUA reagiram rápido, reduzindo de 50% para 18% as tarifas contra os indianos.

Na política, recuo da extrema-direita na Holanda, com a vitória de um partido de centro nas eleições.

Ver também, nesta edição: O comércio brasileiro sob as tarifas.

Cobertura desta edição: 15/01/2026 a 11/02/2026


Índice

Índice geral desta edição

GUERRA COMERCIAL


Os últimos movimentos: Taiwan e Coreia do Sul

Após elevar as tarifas aos países do Extremo Oriente e do Sudeste Asiático, os Estados Unidos tentam usá-las para forçar esses países a aumentarem drasticamente investimentos dentro dos EUA, em troca da redução das taxas. Depois de União Europeia, Coreia do Sul, Japão e outros países da região, em janeiro houve um acordo desse tipo com Taiwan, pelo qual as tarifas dos EUA contra a ilha serão reduzidas de 20% para 15%. A contrapartida é que as empresas taiwanesas de semicondutores invistam pelo menos 500 milhões de dólares na indústria de semicondutores dos Estados Unidos.

Enquanto isso, porém, a Coreia do Sul vai no sentido contrário: com a demora em o parlamento do país internalizar o acordo tarifário assinado com os Estados Unidos em novembro, Trump decretou novamente a elevação das taxas, de 15% para 25%[1] – que entrarão em vigor a não ser que haja algum acordo[2].


As tarifas se espalham: a trumpização da política internacional

Preocupantemente, as tarifas se espalham pelo mundo. Depois de o México taxar o Brasil, Equador e Colômbia enveredaram por uma guerra comercial particular. O governo equatoriano, acusando o colombiano de não atuar devidamente contra o tráfico de drogas e manter um déficit comercial de 850 milhões de dólares com o vizinho, impôs uma taxa de 30% contra várias importações vindas de lá.

Bogotá respondeu retaliando com também 30% sobre alguns produtos e suspendendo a venda de energia. Dez por cento da energia consumida no Equador vem da Colômbia. O Equador prosseguiu a escalada decidindo impor tarifas adicionais sobre o petróleo colombino[3]. O país é o principal parceiro econômico da Colômbia na Comunidade Andina das Nações, um bloco que também inclui Peru e Bolívia, e é o que mais tem a sofrer com esse confronto.

Na postagem do mês passado, foi comentado o perigo de a guerra comercial de Trump se generalizar, porque os países inundados por produtos principalmente da China que deixaram de entrar nos Estados Unidos quererão impor tarifas para controlar esse novo fluxo. O que se vê agora entre Colômbia e Equador é um fenômeno adicional e mais grave: com o precedente de Donald Trump, mandatários se sentem à vontade para usar as tarifas para fins políticos ao invés de comerciais. Sergio Guzmán, diretor da Colombia Risk Analysis, fala em uma “trumpização” da política regional.


A União Europeia se move: Mercosul e Índia

A guerra comercial de Trump pressionou a União Europeia a destravar dois mega-acordos de livre comércio, que foram assinados com diferença de dias: o com o Mercosul, após 25 anos de negociações (e recentes adiamentos exasperantes), e o com a Índia, após 20 anos. No com a Índia, na verdade, a assinatura formal só deve acontecer após uma revisão jurídica, que deve demorar cerca de seis meses[4].

Em ambos os casos, os passos seguintes são a aprovação pelos parlamentos dos países. Só que, no com o Mercosul, esse processo foi suspenso quando o Parlamento Europeu aprovou por pequena margem (334 contra 324 e 11 abstenções) a abertura de uma consulta na Corte de Justiça europeia sobre a compatibilidade do acordo com as regras do bloco. A suspensão pode demorar de um a dois anos. Não há perigo de o acordo ser anulado, porém: se forem apontadas irregularidades, o que terá que acontecer é uma adequação dos termos do tratado para saná-las.


O acordo União Europeia-Índia

O acordo entre União Europeia e Índia envolve números bem maiores que o Mercosul – as somas representam um quarto do PIB mundial e um terço de todo o comércio internacional. Além disso, apesar de a UE ser o principal destino das exportações da Índia, há tarifas escorchantes nesse país contra os produtos europeus, bem piores que as do Mercosul (110% para carros, 150% para vinhos, 44% para máquinas). Tudo isso será drasticamente reduzido ou zerado, após um período de transição de vários anos, dependendo do setor. É interessante notar também que a Índia é o segundo principal comprador de armamentos do mundo (só perde para a Ucrânia) – e alguns países europeus, como Alemanha e França, estão entre os maiores fornecedores.

Outra diferença com o acordo com o Mercosul é que no caso indiano o setor da agricultura ficou de fora, assim como os impostos ambientais de fronteira europeus sobre o carbono. O governo da Índia trata a gestão agrícola como um problema de segurança alimentar da população, hoje a maior do mundo. Por isso, não houve as reações do setor agrícola europeu que acabaram travando o andamento do tratado com os sul-americanos.

Os Estados Unidos reagiram rápido ao acordo UE-Índia, para não se isolarem do país asiático: dias depois da sua assinatura, outro acordo, entre EUA e Índia, reduziu as tarifas contra este país de 50% para 18%. A contrapartida é o aumento do investimento e do comércio indiano com os americanos e a diminuição da importação de petróleo da Rússia. Os números são desconhecidos, porque Trump anunciou cifras impossíveis, no seu estilo bombástico (como 500 bilhões de dólares em investimento e cessação imediata da compra de petróleo russo).


A Holanda pendula

Recuo da extrema-direita na Holanda. Quem ganhou as eleições de outubro foi um partido de centro, o D66, que em janeiro conseguiu acertar uma coalizão para governar. Mas foi uma vitória que não convenceu: terá que formar um governo minoritário no parlamento – o que significa instabilidade política –, do qual ainda fará parte um partido da extrema-direita. No entanto, o novo primeiro-ministro será o líder do D66[5].

Não se trata necessariamente de um recuo sustentável da extrema-direita no país. Várias análises têm apontado uma “crise da incumbência” em todo o Ocidente, em que as condições sociais e econômicas atuais levam a população a expulsar no voto seja quem estiver no governo; no entanto, a alternância sem se dado em geral entre a centro-direita e a extrema-direita, excluindo a esquerda.


Referências:

[1] Valor Econômico 27/01/2026  
[2] The Economist 29/01/2026, “The world this week” 
[3] Le Monde 22/01/2026   
[4] Valor Econômico 28/01/2026  
[5] The Economist 29/01/2026, “The world this week”

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